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ISBN: 978-0-230-76738-6 EPUB
Editora: Macmillan
Imagine marcar um gol diante de sessenta mil pessoas em Highbury. O estádio ruge seu nome. E você, no meio do gramado, não sorri. Em vez disso, sua cabeça já está rebobinando o lance: por que o primeiro toque saiu torto? Por que demorou meio segundo a mais para chutar?
Esse era Thierry Henry. O homem que virou o melhor atacante da Premier League sem nunca aprender a comemorar de verdade. O craque imortalizado em bronze do lado de fora do estádio do Arsenal, mas que vivia sozinho dentro do próprio corpo. Cada gol era uma prova. Cada jogo, um interrogatório.
Você vai conhecer agora o atleta que precisou se blindar emocionalmente desde os sete anos para sobreviver à pressão de um pai. Que conquistou tudo no futebol, e mesmo assim, sentiu-se traído pela França que um dia o amou. A história dele é sobre o preço que se paga quando o talento chega cedo demais e a confiança, tarde demais.
Les Ulis é um subúrbio de Paris cercado por blocos de concreto e poucas saídas. Foi lá que Thierry cresceu, segurado pelas regras firmes da mãe Maryse e pelo cuidado quase paternal do meio-irmão Willy. Quando o menino terminava um jogo encharcado de suor, era Willy quem corria com a toalha. O irmão escondia a transpiração para que Tony, o pai, não tivesse munição para gritar.
Tony Henry era a sombra do garoto. Diagnosticado com pés chatos e asma quando criança, Thierry era tratado em casa com chá de "mallomé" preparado pela avó caribenha. Mas nenhum chá curava a obsessão do pai, que via no filho a chance de viver as ambições esportivas que ele mesmo nunca alcançou. Depois dos jogos, Tony gritava com Thierry na frente de todos. O menino aprendeu a não chorar. Aprendeu a engolir.
Aos treze anos, ele entrou em Clairefontaine, a academia que recebeu cinquenta mil candidatos e escolheu apenas vinte e dois. Lá, o técnico Christian Damiano fez algo raro: protegeu o garoto do comportamento abusivo de Tony. Mas o estrago já existia. Thierry tinha desenvolvido uma desconfiança crônica, uma blindagem que o acompanharia por toda a carreira.
No AS Monaco, sob o comando de Jean Tigana, Thierry explodiu. Velocidade absurda, frieza no último toque. Formou uma trinca ofensiva mortal com o brasileiro Sonny Anderson e o jovem David Trezeguet. Aos dezoito anos, ele já era cobiçado pelos maiores clubes da Europa.
Foi aí que veio a queda. Um agente sombrio chamado Michel Basilevic se aproximou de Tony Henry, prometendo o paraíso espanhol. Em um quarto do Hôtel Abela, eles assinaram um pré-contrato ilegal com o Real Madrid. Thierry sequer entendia o que estava sendo combinado em seu nome. A FIFA descobriu, aplicou uma multa de quarenta mil libras, e o escândalo veio à tona.
Naquele momento, algo se quebrou. Thierry afastou Tony da gestão da sua carreira. O filho assumiu as rédeas. O pai que um dia gritou na arquibancada virou alguém em quem ele não podia mais confiar. A inocência esportiva acabou ali, com vinte anos ainda incompletos.
Junho de 1998. A França sediava a Copa do Mundo, e o jovem Thierry virou o artilheiro inesperado da seleção. Nas quartas de final contra a Itália, ele bateu um pênalti decisivo e correu para abraçar Trezeguet em pleno gramado. Quando Aimé Jacquet levantou a taça, Henry estava lá, parte da geração "black-blanc-beur" que uniu temporariamente um país etnicamente dividido.
O problema é que vinte anos é cedo demais para virar lenda. Voltando ao Monaco, ele encontrou críticas duras de que o sucesso havia subido à cabeça. Perdeu espaço. Foi rebaixado para a seleção sub-21. A transferência para a Juventus, intermediada pelo controverso Lucien D'Onofrio, parecia um recomeço.
Foi um pesadelo. Sob Ancelotti e Lippi, no rígido 3-5-2 italiano, Thierry foi escalado como ala esquerdo. Corria sessenta metros para defender, voltava esgotado para atacar. Em seis meses, sua autoconfiança virou pó. O futebol italiano não tinha lugar para um atacante que precisava de espaço para correr. Ele saiu de Turim quebrado por dentro.
Em 1999, Arsène Wenger pagou onze milhões e meio de libras para tirá-lo da Juventus. O técnico francês tinha uma ideia clara: Henry não era ala, era centroavante. Mas a Inglaterra é implacável com novatos. Os primeiros meses foram uma seca dolorida. A imprensa britânica perguntava se aquele francês magrelo justificava o investimento.
A virada aconteceu em uma noite de setembro contra o Southampton. Thierry pegou a bola fora da área, ajeitou o corpo e mandou uma bomba no ângulo. Highbury explodiu. Foi como destravar uma porta. A partir dali, os gols não pararam mais.
Wenger reinventou a posição. Henry não ficava parado esperando o cruzamento. Ele caía pela esquerda, rasgava os zagueiros ingleses na velocidade, voltava para o miolo. Tony Adams, o lendário capitão, dizia que vestir a camisa do Arsenal exigia entrega total, e Thierry entregou. Encontrou em Highbury o que nunca tivera: um lugar onde podia simplesmente ser amado.
Aqui mora o grande paradoxo de Thierry Henry. Em Londres, ele era rei. Em Paris, era réu. A imprensa francesa pintava um retrato de arrogância e individualismo, enquanto a inglesa o tratava como divindade.
A explicação tática começa em Zinedine Zidane. Henry corria em linha reta, em alta velocidade. Zidane jogava em cadência, em pausas, em provocações. Eles não se encaixavam. Existe uma estatística assombrosa: nos primeiros cinquenta e um jogos juntos pela seleção, Zidane não deu uma única assistência para Henry. Nenhuma.
Enquanto isso, no Arsenal, Thierry construía a história eterna. A temporada 2003-2004 dos Invencíveis: trinta e oito jogos da Premier League sem derrota, um recorde provavelmente inalcançável. O gol contra o Manchester United, batido de fora da área no canto, virou cartão postal. Mas em 2006, a França caiu para a Espanha na Copa, e a imprensa francesa achou jeito de culpá-lo. Em Londres ele era escultura. Em Paris, alvo.
Quando Patrick Vieira deixou o Arsenal, a braçadeira de capitão foi para Thierry. Era um peso para o qual ele nunca foi feito. Henry liderava pelo exemplo, não pela palavra. O vestiário ficou cheio de jovens, ele ficou sozinho na função de inspirar quem mal conhecia.
O clube, ao mesmo tempo, sangrava dinheiro para construir o Emirates Stadium. Sem fundos para reforços, o elenco enfraqueceu, e tudo dependia de Henry. Em maio de 2006, no Stade de France, em Paris, o Arsenal chegou à final da Liga dos Campeões contra o Barcelona. Perdeu por dois a um. A derrota agravou lesões físicas crônicas que ele vinha arrastando havia meses.
O golpe final veio nos bastidores. David Dein, o vice-presidente que era o principal pilar de confiança de Thierry no clube, foi expulso da diretoria. Sem Dein, sem projeto, sem time. Henry quebrou o recorde histórico de gols do clube antes pertencente a Ian Wright, mas o coração já estava em outro lugar.
Vinte e quatro milhões de euros, dezesseis milhões de libras. O Barcelona pagou e levou Thierry para a Catalunha em 2007. Era a chance de finalmente erguer a Champions League. Mas era também o fim de ser O Cara.
Sob Frank Rijkaard, ele foi escalado como ponta esquerda no clássico 4-3-3, servindo Eto'o e o jovem Messi. Tinha que defender, marcar, recuar. Bem diferente do número 9 livre que Wenger desenhou em Londres. Em 2009, com Pep Guardiola, veio a explosão: seis troféus em uma temporada, a tríplice coroa, a glória europeia que ele tanto perseguiu.
Só que a vitória teve sabor estranho. Henry era coadjuvante de uma máquina coletiva que não dependia dele. E logo veio o desfecho mais doloroso: as contratações agressivas seguintes do clube empurraram Thierry para fora do esquema. Ele perdeu espaço por completo, descobriu que era peça substituível, e percebeu que o Barça tinha sido apenas um interlúdio dourado, um parêntese na sua história, jamais um lar.
Novembro de 2009. Repescagem para a Copa do Mundo, França contra Irlanda. O árbitro sueco Martin Hansson não viu o que o mundo inteiro viu: Henry ajeitou a bola com a mão antes de cruzar para o gol decisivo. O lance foi rebatizado de "Hand of Gaul". Em segundos, ele deixou de ser craque e virou trapaceiro nacional.
A imprensa o massacrou. O L'Équipe estampou "LES IMPOSTEURS". A elite política francesa, que normalmente protegia seus ídolos, deixou Thierry sangrando sozinho. Não houve defesa pública. Não houve abraço.
O epílogo veio meses depois, no Mundial de 2010 na África do Sul. A seleção francesa virou caos. Os jogadores entraram em greve televisionada contra a federação, trancados dentro do "ônibus da vergonha". Henry, banido para o banco por Raymond Domenech, ficou em silêncio. Não liderou, não conteve, não falou. Domenech foi demitido na sequência. A carreira internacional do maior artilheiro da história da França terminou sem despedida, sob o olhar perplexo do mundo.
Em 2012, emprestado pelo New York Red Bulls, Thierry voltou ao Arsenal por algumas semanas. Marcou o gol da vitória contra o Leeds pela Copa da Inglaterra e caiu de joelhos, chorando. Pela primeira vez, a máscara caiu. Dominar zagueiros sempre foi mais fácil do que dominar a própria história. Ele nunca foi rei dentro de si — só naquele estádio.
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